terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Candomblé, afinal o que é?
Jairo Santiago
Professor Doutor em Comunicação /ECO/UFRJ
Desde o século XVI milhões de negros vindos da África chegaram à costa brasileira, são de diversas etnias, que, mesmo considerada a diversidade cultural, comungam do fato de terem perdido as referências territoriais e comunitárias.
Restavam-lhes apenas os valores e princípios que demarcavam sua visão de mundo.
Esse grupo utiliza as mais diversas formas e táticas de sobrevivência.
Importante que se diga, que não se tratava apenas de uma sobrevivência espiritual, mas principalmente do corpo, de uma forma de viver.
Diante da adversidade da escravidão, era preciso recompor as referências perdidas. A religiosidade se prefigurou como um dos caminhos possíveis nessa empreitada, e o Candomblé, dentre outras manifestações religiosas se singularizou na manutenção de valores e princípios negros na diáspora. O Candomblé em sua expressão de maior magnitude, a comunidade-terreiro, permitiu a recriação de laços comunitários e territoriais aniquilados com a escravidão.
Mas afinal o que é Candomblé?
Em primeiro lugar se faz necessário pensar que se trata de uma poderosa síntese que se processou em território brasileiro, sendo assim resultado de um longo e doloroso processo histórico, no qual os negros escravizados e, posteriormente os libertos, tecem laços comunitários e territoriais, consideradas as diversidades adversidades. O negro se moveu, resistiu, se comunicou entre os fios da rede da repressão.
Entender essa tensa rede de acordos e enfrentamentos, de avanços e retrocessos, de disputas e acertos internos é o longo caminho para se compreender o que é o Candomblé. Nesse sentido, se lança mão aqui de uma metáfora para se tentar chegar a um primeiro entendimento do que seja candomblé, ou pelo menos uma de suas traduções possíveis:
Imagine que uma pessoa viaja até a África e que lá chegando conhece um determinado prato da culinária local, interessando-se pelo referido prato, solicita a receita e descobre que alguns dos ingredientes não existem no Brasil, e, mesmo assim, consegue os ingredientes e volta ao Brasil, onde resolve reproduzir o prato, mas se propõe a algo mais, ou seja, resolve inventar um novo prato, que embora contenha ingredientes africanos não lembra nenhum prato conhecido na África.
Portanto é um prato brasileiro. Assim é o Candomblé, pois mesmo considerados os elementos simbólicos e religiosos africanos (ingredientes) é resultado do processo histórico na diáspora, é síntese da inventividade dos partícipes. As palavras inventividade e recriação são fundamentais à compreensão do papel do negro escravizado ou liberto na diáspora.
O Candomblé agrega territorialmente elementos que no território africano eram dispersos e objeto de cultos locais e até isolados. Muniz Sodré nesse sentido afirma:
Do lado dos ex-excravos, o terreiro de (de candomblé) afigura-se como a forma social negro-brasileira por excelência, por que além da diversidade existencial e cultural que engendra, é um lugar originário de força ou potência social para uma etnia que experimenta a cidadania em condições desiguais. Através do terreiro e de sua originalidade diante do espaço europeu, obtêm-se traços de fortes subjetividade histórica das classes subalternas no Brasil (SODRÉ.1988,p.18)
Retomando o conceito de comunidade-terreiro, percebe-se que a mesma implica além da junção de elementos dispersos e distantes, uma nova concepção de comunidade, que agrega vivos e mortos, implica em uma relação de troca entre os vivos e os ancestrais, entre deuses e seres humanos, implica ainda em uma visão de ser humano que negocia com os deuses e ancestrais uma boa vida na terra, uma vida alegre, criativa e em constante movimento, pois para o Candomblé nada é estático, tudo é movimento, tudo é troca constante.
A idéia de movimento remete a um dos elementos mais importantes do Candomblé, que a figura de Exu, senhor do movimento sem fim, é responsável pela existência dinâmica da realidade, tudo muda, seres humanos, árvores, pedras, todos são parceiros em uma relação que é dada pela dimensão de um jogo cósmico. As possibilidades vão sendo construídas e destruídas o tempo todo. O segredo da regra do jogo encontra-se na palavra acerto, ou seja, acertar um ponto, fechar um acordo, alterar uma situação, enfim simular e dissimular a realidade. Uma grande figura do Candomblé, o professor Agenor Miranda da Rocha , dizia com propriedade: Candomblé é um sistema cuja base é Exu.
Assim sendo, na impossibilidade de um ponto fixo de referência, e de uma conversão à uma verdade eterna e imutável, como caminha a civilização ocidental
desde Platão, o Candomblé acena sempre com a possibilidade de se mudar o mundo e o destino. Busca-se enganar a morte, nem que seja por uma vez. O candomblé não se prefigura como um espaço de conversão à uma única verdade. Pertencer a uma comunidade-terreiro não exige o pressuposto da adesão a verdade, basta estar ali. Em uma festa ou cerimônia pública não se pergunta se a pessoa acredita ou não na divindade presente, ou nos princípios ali vigentes.
Os deuses existem independentemente da fé. Deve se entender Candomblé como um espaço de enfrentamento do projeto universalista da civilização ocidental. Na comunidade-terreiro o homem é capaz de estabelecer uma relação de troca sem que sobre um resto a ser apropriado economicamente e em favor de algum grupo
dominante .
A comunidade-terreiro recria a referência territorial-comunitária perdida em razão da escravidão. Os negros e seus descendentes reconstituem possibilidades de enfrentar o mundo que lhes é hostil e adverso.
Candomblé e Modernidade – considerações finais
O Candomblé, embora não se possa dizer que esteja fora da modernidade, implica em pontos de enfrentamento a esse projeto de ocidentalização do mundo pela lógica do mercado. Alguns aspectos da comunidade-terreiro apontam na direção de negar a modernidade. Entre esses pontos podem ser destacados: a relação com o corpo, que deixa de ser uma mercadoria, a impossibilidade da reprodução ad infinitum dos bens, a relação com o tempo e com o espaço.
A crença na palavra do pai fundador que se traduz no culto à ancestralidade, o reforço do sentido coletivo do agir humano que se choca frontalmente com o individualismo moderno; a crença no movimento constante da vida e dos homens, a crença na palavra e a desnecessidade de contratos escritos para garantir o cumprimento de um acordo e finalmente a negação de um dos sentidos da existência, a noção de axé. Para os adeptos do Candomblé a vida é um ato de alegria que se perpetua entre os parceiros do cósmico. Mas viver o hoje não implica uma visão pós-moderna de vida, um imediatismo infrutífero, mas sim, uma relação de ética comunitária, a felicidade de um deve estar imbricada com a felicidade de todos. Afinal isto é Candomblé.
Referências Bibliográficas
SODRÉ,Muniz, A verdade seduzida: Por um conceito de cultura no Brasil: Rio de Janeiro,CODECRI, 1983.
___________, O terreiro e a cidade: A forma social brasileira, Petrópolis: Vozes,1988
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
EXPRESSÕES AFRO-BRASILEIRAS

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A B C D E F G I |
J L M N O P Q R S
V X Y W Fonte: Expressões retiradas do Livro: A Galinha-D'Angola, de Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello, José Flávio Pessoa de Barros/Editora Pallas, no Site União Umbandista dos Cultos Afro-Brasileiros. www.uucab.com.br |
DANÇAS POPULARES BRASILEIRAS

BATUQUE
É a dança de roda onde os africanos mostravam a sua cultura - foi o tronco principal no que diz respeito à formação da música popular brasileira com toda a sua diversidade e variações que se espalharam nas áreas urbanas e rurais, sob vários nomes e estilos próprios.
SAMBA DE PARTIDO ALTO
Segundo velhos sambistas, a expressão "partido alto" provém da alta dignidade desse samba. Gênero de samba muito próximo do batuque africano, e cultivado na cidade do Rio de Janeiro desde o fim do séc. XIX por grupos de negros já urbanizados. É dança de umbigada, com ritmo marcado por palmas, prato de cozinha raspado com faca, chocalho e outros instrumentos de percussão, e, às vezes, acompanhada pelo violão e pelo cavaquinho.
SAMBA DE RODA
É uma dança que os negros do Congo e de Angola trouxeram para o Brasil e consiste em geral de se fazer uma grande roda em cujo centro um só dançarino ou par, faz evoluções e depois de muitos requebros da uma umbigada em outro dançarino de sexo diferente, que vai por sua vez para o centro, e assim sucessivamente.
BAIANO
Antiga dança folclórica do Nordeste brasileiro, uma espécie regional do lundu. A princípio, era executado por um só individuo ou um ou dois pares, que iam ao centro de um em um. A substituição dos solistas podia ser feita por meio de umbigada, ao som de castanholas, cumprimentos ou acenos de mão, ou ainda, jogando-se o "lenço da sorte".
O baiano (ou baião) em sua forma antiga é encontrado em nossos dias como dança e música no Bumba-meu-boi, nos solos de personagens como Mateus e Fidélis, sendo Pernambuco o seu grande reduto.
FREVO
A palavra Frevo, derivada de frever (ferver) designa a dança carnavalesca de rua e de salão, essencialmente rítmica, em compasso binário e andamento mais rápido que o da marchinha carioca, e na qual os dançarinos (passistas) executam coreografia individual, improvisada e frenética. É uma dança brasileira, originária do Nordeste do país.
QUILOMBO
Folguedo, usado no interior de AL durante o Natal, em que dois grupos numerosos, figurando negros fugidos e índios, vestidos a caráter e armados de compridas espadas e terçados, lutam pela posse da rainha índia, acabando a função pela derrota dos negros vendidos aos espectadores como escravos; toré, torém.
LUNDU
Dança de origem africana que teve seu esplendor no Brasil em fins do séc. XVIII e começo do séc. XIX. Dos meados do séc. XIX em diante, canção solista, influenciada pelo lirismo da modinha e freqüentemente de caráter cômico.
COCO
Dança popular de roda do norte e nordeste do Brasil, originária de Alagoas, acompanhada de canto e percussão. Acredita-se que tenha nascido nas praias, daí o seu nome. O ritmo sofreu várias alterações com o aparecimento do baião nas caatingas e agreste. Como compositor que popularizou o ritmo podemos citar Jackson do Pandeiro.
CONGO
Dança dramática de origem africana, que se realiza de preferência pelo Natal, pela festa de Nossa Senhora do Rosário, e pela de São Benedito na região Norte e Nordeste do Brasil.
CONGADA
Bailado dramático em que os figurantes representam, entre cantos e danças, a coroação de um rei do Congo; congado.
MOÇAMBIQUE
Bailado guerreiro de origem negra, sem enredo, ao som de instrumentos de percussão, semelhante às danças de combate das congadas, e no qual o ritmo é marcado com entrechoques de bastões. Comum nos estados brasileiros de Minas Gerais, São Paulo e Goiás.
BUMBA-MEU-BOI
No Brasil de norte a sul encontramos a brincadeira de boi (boi fingido), conforme a região estes possuem características e nomes distintos.
É um bailado popular brasileiro, cômico-dramático, organizado em cortejo, com personagens humanos (Pai Francisco, Mateus, Bastião, Arlequim, Catirina, Capitão Boca-Mole, etc.), animais (o Boi, a Ema, a Cobra, o Cavalo-Marinho, etc.) e fantásticos (a Caipora, o Diabo, o Morto-Carregando-o-Vivo, o Babau, o Jaraguá, etc.), cujas peripécias giram em torno da morte e ressurreição do boi. São palavras sinônimas: boi, boi-bumbá, boi-calemba, boi-calumba, boi-de-mamão, boi-de-melão, boi-melão, boi-de-reis, boi-pintadinho, boi-surubi(m), boizinho, bumba, bumba-boi, cavalo-marinho, rei-de-boi, reis-de-boi, reisado cearense. (Dic. Aurélio).
Exemplos de Bois:
Boi-de-mamão é uma das manifestações mais significativas da cultura popular catarinense. Está presente nos municípios do litoral e principalmente em Florianópolis, Capital de Santa Catarina, onde concentra o maior número de grupos.
Boi-de-orquestra
Bumba-meu-boi mais recente e de música faceira, cabriolante; boi-de-matraca. Pertencente ao folclore do Maranhão - Brasil.
Boi-de-zabumba
Bumba-meu-boi de ritmo mais lento, apoiando-se em grandes tambores enfiados em varas que dois homens carregam, e o músico caminha ao lado, batendo-lhe com um macete. Folclore do Maranhão - Brasil. C
ARIMBÓ
Palavra de origem africana refere-se a uma Dança de roda do litoral paraense. É música folclórica da Ilha de Marajó desde o século XIX.
BALAIO
Antiga dança, espécie de fandango, introduzida no Rio Grande do Sul - Brasil pelos açorianos.
Contribuição na música e na dança
A raiz negra está em tudo: no samba, no pagode, no afoxé, nas festas folclóricas como a do maracatu. Além dos ritmos, os africanos trouxeram também instrumentos, como o berimbau, a cuíca e outros instrumentos de percussão, como o atabaque o berimbau.

Afoxé
Fonte: Wikipedia 
Berimbau
Fonte: Wikipedia 
Agogô
Fonte: Wikipedia
Mistura de dança, luta e música, a capoeira também surgiu com os negros, que a utilizavam como arma de defesa. Durante a escravidão, reuniam-se em roda depois do trabalho para cantar, dançar, jogar capoeira ou reverenciar com música os seus orixás. Batiam palmas, batucavam, reviviam suas tradições. E assim a música negra se afirmava em meio a tanto sofrimento.

Os escravos misturavam instrumentos musicais, dança e luta, enganando seus Senhores de Engenho, que pensavam estarem eles apenas "dançando".
A capoeira sofreu repressão por grande parte das autoridades policiais e também os senhores de engenho perseguiam os escravos praticantes de capoeira, porque a atividade dava ao capoeirista um sentido de nacionalidade, individualidade e auto-confiança, formando grupos coesos e jogadores ágeis e perigosos e também porque, às vezes, no jogo, os escravos se machucavam, o que era economicamente indesejável.
O capoeirista era considerado um marginal, um delinqüente. O Decreto-lei 487 acabou temporariamente com a capoeira, mas os negros resistiram até a sua legalização.
Mas, as coisas mudaram em fins da década de 30 do século passado. Um capoerista chamado Manuel dos Reis Machado, Mestre Bimba foi convidado por Juracy Montenegro Magalhães, a ir ao Palácio do Governo baiano. E agora? Mestre Bimba ficou assustado, achou que seria preso!
Para sua surpresa, o governador queria que se apresentasse com seus alunos para mostrar "a nossa herança cultural" para amigos e autoridades no Palácio do Governo.
Em 09 de julho de 1937, Mestre Bimba conseguiu o registro de sua Academia, a primeira reconhecida no país. Nesse ano, inicia-se a ascensão sócio-cultural da capoeira, que volta ao cenário cultural, estando presente na música, nas artes plásticas, na literatura, nos palcos...
Em 15 de julho de 2008 a capoeira foi reconhecida como Patrimônio Cultural Brasileiro e registrada como Bem Cultural de Natureza Imaterial.
E no período da escravidão? Será que havia artistas afro-brasileiros? Sim, e alguns até ficaram famosos, mas a maioria só foi descoberta muito depois de sua morte!
Um pouco depois do período escravocrata, conhecemos alguns músicos negros, pioneiros da chamada música popular brasileira, como José Antônio da Silva Callado e Pixinguinha.
Muito depois, na década de 30, os artistas afro-brasileiros ganharam o seu espaço, sobretudo com o boom do rádio! E aí... milhões de pessoas ouviam os artistas negros.
Foi um tempo em que intelectuais e artistas começaram a reivindicar uma nova percepção de Brasil, como o país da miscigenação e da democracia racial.
Foi Carmem Miranda, uma mulher branca, a eleita "Rainha do Samba". Não por acaso. Sabe-se que a artista divulgava a música de artistas negros, quando eles não conseguiam trabalho.
Sabe-se ainda, por sua insistência e influência muitos artistas negros saíram do anonimato para subir aos palcos, incluindo nesse grupo grandes nomes como Dorival Caymmi e Sinval Silva, motorista de Carmem e autor do clássico "Adeus Batucada".
Mesmo assim, até o final da década de 50, foram poucos os artistas negros que conseguiram ter contratos assinados com gravadoras.
Nos anos 60, muitas composições sobre personagens negros eram racistas e ninguém reclamava. Apesar da ingenuidade de canções como "O teu cabelo não nega mulata (…) Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata eu quero teu amor", está na cara o sinal de preconceito. "Mas como a cor não pega" fala da negritude como se fala de uma doença.
Gilberto Gil e Caetano Veloso, através de suas composições, colaboraram para que a força política do negro fosse mais reconhecida!
Depois deles, vários artistas negros despontaram no hip-hop, rap ou samba com a deliberada intenção de despertar o orgulho negro entre os jovens.
Fonte: http://www.colegiolacordaire.conexaopitagoras.com.br/CF//antenado/especiais/cultura_afro/cultura.html
Influência Africana no Canto Popular Brasileiro

Influência Africana
O africano também tomou parte vasta na formação do canto popular brasileiro. Foi certamente ao contacto dele que a nossa rítmica alcançou a variedade que tem, uma das nossas riquezas musicais. A língua brasileira se enriqueceu duma quantidade de termos sonorosos e mesmo de algumas flexões de sintaxe e dicção, que influenciaram necessariamente a conformação da linha melódica. Até hoje surgem cantos, principalmente danças cariocas e números de Congos e Maracatus, em que aparecem palavras africanas. Do dilúvio de instrumentos que os escravos trouxeram para cá, vários se tornaram de uso brasileiro corrente, que nem o Ganzá, Puíta ou Cuíca e o Tabaque ou Atabaque. Instrumentos quase todos de percussão exclusivamente rítmica, eles se prestam a orgias rítmicas tão dinâmicas, tão incisivas, contundentes mesmo, que fariam inveja a Stravinski e Vila-Lobos. Tive ocasião de assistir, no Carnaval do Recife, ao Maracatu da Nação do Leão Coroado. Era a coisa mais violenta que se pode imaginar. Um tirador das toadas e poucos respondedores coristas estavam com a voz completamente anulada pelas batidas, fortíssimo, de doze bombos, nove gonguês e quatro ganzás. Tão violento ritmo que eu não o podia suportar. Era obrigado a me afastar de quando em quando para . . . pôr em ordem o movimento do sangue e do respiro. O Landu ou Lundu foi inicialmente uma dança africana "a mais indecente" diz De Freycinet. E quase sempre no texto, "Eu gosto da Negra", "Ma hialia" (vide meu "Ensaio" citado), "Mulatinha do Caroço no Pescoço", o lundu ainda guarda memória da origem africana.Si nos movimentos coreográficos de certas danças-dramáticas nossas, inda é possível distinguir processos de danças cerimoniais ameríndias, tais como as descritas por Léry, Martius e outros: o jeito africano muito lascivo de dançar, permaneceu na índole nacional. As danças mais generalizadas de toda a América são afro-americanas: o Maxixe, o Samba, a Habanera, o Tango, o Foxtrote.Também danças-dramáticas os negros criaram aqui, num misto de saudade do seus cortejos festivos da África e imitação dos autos portugueses. Os Maracatus e os Congos são as que predominaram mais até agora. Muitos dos nossos cantos de feitiçaria, tão bonitos e originais, também são de influência genuinamente africana.Parece que a música foi o derivativo principal que os africanos tiveram no exMio da América. Inundaram o Brasil de cantos monótonos. Os brancos, cuja vida não tinha onde gastar dinheiro (Capistrano de Abreu), mostravam a riqueza pelo número de escravos. Destes, os que sobravam em casa, eram mandados sós e principalmente aos grupos ganhar para os senhores, fazendo comissões, transportando coisas de cá para lá, nas cidades. Pra uniformizarem o movimento em comum e facilitar assim o transporte das coisas pesadas, cantavam sempre e "as ruas ressoavam, ecoando a bulha das vozes e das cadeias" (Foster; L. Luccock; príncipe de Wied). Os negros escravos e os mulatos se especializavam mesmo na música. Manuel Querino, relatando as ocupações dos escravos na Baía, escreve textualmente: O escravo "não tinha tempo a perder; nas horas vagas estudava música, de oitiva . . .". Alexandre Calcleugh registra o seguinte anúncio carioca "Quem quizer comprar hum Escravo próprio para Boliero, que sabe tocar Piano e Marimba e alguma cousa de Música e com princípio de alfaiate, derejase á botica da Travessa da Candelaria, canto da rua dos Pescadores, n. 6". De Freycinet cita Joaquim Manuel, cabra tão cuera no violão que deixava longe qualquer guitarrista europeu. O nosso talvez maior modinheiro do século XIX, Xisto Bahia, era mulato. Por tudo isto é fácil de perceber que a influência negra foi decisiva na formação da nossa música popular.
Fonte: http://tribomusica.br.tripod.com/inicio/id8.html
LÍNGUA PORTUGUESA DO BRASIL: UM SOPRO AFRICANO EM NOSSO IDIOMA

Palavras que tem sua origem nas diversas línguas faladas pelos diferentes povos africanos:
A
abará: bolinho de feijão.
acará: peixe de esqueleto ósseo.
acarajé: bolinho de feijão frito (feijão fradinho).
agogô: instrumento musical constituído por uma dupla campânula de ferro, produzindo dois sons.
angu: massa de farinha de trigo ou de mandioca ou arroz.
B
bangüê: padiola de cipós trançados na qual se leva o bagaço da cana.
bangulê: dança de negros ao som da puíta, palma e sapateados.
banzar: meditar, matutar.
banzo: nostalgia mortal dos negros da África.
banto: nome do grupo de idiomas africanos em que a flexão se faz por prefixos.
batuque: dança com sapateados e palmas.
banguela: desdentado.
berimbau: instrumento de percussão com o qual se acompanha a capoeira.
búzio: concha.
C
cachaça: aguardente.
cachimbo: aparelho para fumar.
cacimba: cova que recolhe água de terrenos pantanosos.
Caculé: cidade da Bahia.
cafife: diz-se de pessoa que dá azar.
cafuca: centro; esconderijo.
cafua: cova.
cafuche: irmão do Zumbi.
cafuchi: serra.
cafundó: lugar afastado, de acesso difícil.
cafuné: carinho.
cafungá: pastor de gado.
calombo: quisto, doença.
calumbá: planta.
calundu: mau humor.
camundongo: rato.
candomblé: religião dos negros iorubás.
candonga: intriga, mexerico.
canjerê: feitiço, mandinga.
canjica: papa de milho verde ralado.
carimbo: instrumento de borracha.
catimbau: prática de feitiçaria .
catunda: sertão.
Cassangue: grupo de negros da África.
caxambu: grande tambor usado na dança harmônica.
caxumba: doença da glândula falias.
chuchu: fruto comestível.
cubata: choça de pretos; senzala.
cumba: forte, valente.
D
dendê: fruto do dendezeiro.
dengo: manha, birra.
diamba: maconha.
E
efó: espécie de guisado de camarões e ervas, temperado com azeite de dendê e pimenta.
Exu: deus africano de potências contrárias ao homem.
F
fubá: farinha de milho.
G
guandu: o mesmo que andu (fruto do anduzeiro), ou arbusto de flores amarelas, tipo de feijão comestível.
I
inhame: planta medicinal e alimentícia com raiz parecida com o cará.
Iemanjá: deusa africana, a mãe d’ água dos iorubanos.
iorubano: habitante ou natural de Ioruba (África).
J
jeribata: alcóol; aguardente.
jeguedê: dança negra.
jiló: fruto verde de gosto amargo.
jongo: o mesmo que samba.
L
libambo: bêbado (pessoas que se alteram por causa da bebida).
lundu: primitivamente dança africana.
M
macumba: religião afro-brasileira.
máculo: nódoa, mancha.
malungo: título que os escravos africanos davam aos que tinham vindo no mesmo navio; irmão de criação.
maracatu: cortejo carnavalesco que segue uma mulher que num bastão leva uma bonequinha enfeitada, a calunga.
marimba: peixe do mar.
marimbondo: o mesmo que vespa.
maxixe: fruto verde.
miçanga: conchas de vidro, variadas e miúdas.
milonga: certa música ao som de violão.
mandinga: feitiçaria, bruxaria.
molambo: pedaço de pano molhado.
mocambo: habitação muito pobre.
moleque: negrinho, menino de pouca idade.
muamba: contrabando.
mucama: escrava negra especial.
mulunga: árvore.
munguzá: iguaria feita de grãos de milho cozido, em caldo açucarado, às vezes com leite de coco ou de gado. O mesmo que canjica.
murundu: montanha ou monte; montículo; o mesmo que montão.
mutamba: árvore.
muxiba: carne magra.
muxinga: açoite; bordoada.
muxongo: beijo; carícia.
massagana: confluência, junção de rios em Angola.
O
Ogum ou Ogundelê: Deus das lutas e das guerras.
Orixá: divindade secundário do culto jejênago, medianeira que transmite súplicas dos devotos suprema divindade desse culto, ídolo africano.
P
puita: corpo pesado usado nas embarcações de pesca em vez fateixa.
Q
quenga: vasilha feita da metade do coco.
quiabo: fruto de forma piramidal, verde e peludo.
quibebe: papa de abóbora ou de banana.
quilombo: valhacouto de escravos fugidos.
quibungo: invocado nas cantigas de ninar, o mesmo que cuca, festa dançante dos negros.
queimana: iguaria nordestina feita de gergelim .
quimbebé: bebida de milho fermentado.
quimbembe: casa rústica, rancho de palha.
quimgombô: quiabo.
quitute: comida fina, iguaria delicada.
quizília: antipatia ou aborrecimento.
S
samba: dança cantada de origem africana de compasso binário (da língua de Luanda, semba = umbigada).
senzala: alojamento dos escravos.
soba: chefe de tribo africana.
T
tanga: pano que cobre desde o ventre até as coxas.
tutu: iguaria de carne de porco salgada, toicinho, feijão e farinha de mandioca.
U
urucungo: instrumento musical.
V
vatapá: comida.
X
xendengue: magro, franzino.
Z
zambi ou zambeta: cambaio, torto das pernas.
zumbi: fantasmas.